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Quando voltaremos a crescer?

EXAME ouviu sete dos principais especialistas que acompanham a economia brasileira para saber o que esperam do futuro. A conclusão - a crise é muito séria, mas não deve demorar para o Brasil reencontrar o caminho da prosperidade

Os últimos dados oficiais sobre o desempenho da economia brasileira foram como um balde de gelo jogado sobre o ânimo dos mais otimistas. Segundo o IBGE, o PIB brasileiro no quarto trimestre de 2008 caiu 3,6% - número que sepultou as últimas esperanças de um "descolamento" brasileiro em meio às turbulências. A crise, de certa forma, foi quantificada. Mas em que medida esses números indicam o comportamento dos próximos meses? Eles nos condenam a um 2009 sem chance de crescimento? Quando o pesadelo da crise dará lugar a um novo ciclo de expansão? Para tentar clarear o cenário, EXAME foi ouvir o que pensam sete dos maiores especialistas em economia brasileira. Não há, como se esperava, consenso absoluto sobre a forma como o Brasil se comportará no futuro próximo. Nem datas mágicas para a retomada. Mas, tomadas no conjunto, as opiniões dos sete especialistas situam o Brasil no cenário global - e mostram para onde deveremos olhar nos próximos meses.

 

A sorte do Brasil depende da China
Jim O´Neill, chefe do departamento de pesquisas econômicas do banco americano Goldman Sachs e autor do termo Bric

O fato de a economia brasileira ter contraído 3,6% no último trimestre de 2008 não é tão surpreendente. A economia americana caiu 6%, a alemã mais ainda e o Japão teve queda de dois dígitos. Infelizmente, o Brasil está no mesmo planeta que todas as economias do G7. Quando o Brasil vai reagir? O que acontecer na China será crítico para o mundo todo. As ações das empresas chinesas voltaram a subir em novembro, época em que o governo de Pequim anunciou um grande pacote de estímulo à economia. Há alguns sinais de que o desempenho da China melhorará daqui para a frente.

Já as bolsas nos países desenvolvidos perderam muito - o que sugere uma volta de algum tipo de descolamento entre os emergentes e o mundo rico. Os preços das commodities subiram um pouco, o que é, obviamente, muito importante para o Brasil. Diante disso, o que o governo brasileiro deveria fazer? Primeiro, rezar. Depois, torcer para que a economia chinesa melhore, em seguida, esperar que alguma coisa positiva saia do encontro do G20 em abril e, por último, cortar a taxa de juro de forma mais agressiva.

A retomada virá logo. Mas aos poucos
John Welch, doutor em economia pela Universidade de Illinois e economista-chefe global do banco Itaú

O ciclo de ajuste dos estoques das empresas deve prosseguir até meados deste ano. Prevemos a volta do crescimento no terceiro trimestre, liderada pela indústria, o setor que mais caiu até agora. A parte mais difícil de prever é o comportamento do setor de serviços, hoje o principal na formação do PIB brasileiro. Esse setor pode surpreender. Mas ainda assim a retomada se dará num ritmo lento, aos poucos. Por enquanto, nossa previsão é de queda de 1,5% do PIB neste ano, pois o efeito da desaceleração já ocorrida é grande. Uma condição necessária para a recuperação é que a expectativa de piora desapareça. Aí o excesso de cautela diminui, as pessoas recomeçam a comprar e as companhias voltam a produzir, embora num nível mais lento. Isso é mais fácil no Brasil do que nos Estados Unidos, já que aqui as famílias e as empresas estão menos endividadas. A reação radical à crise ocorrida nas empresas brasileiras é outro dado positivo. É como tratar um câncer: é melhor tirar mais do organismo e assim evitar que a doença reapareça. Ter feito um ajuste forte no início da crise vai ajudar a recuperação a ser mais rápida. Da parte do governo, o Banco Central tomou as medidas certas e, até agora, o presidente Lula fez bem em resistir a ideias exóticas - o que não é fácil porque até os Estados Unidos têm tomado iniciativas mais heterodoxas. Se continuar assim, o Brasil estará em boas condições para se sair bem.

Ainda dá para voltar a crescer neste ano
Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e sócio da gestora de recursos Rio Bravo

Não podemos descartar surpresas, mas o resultado do último trimestre de 2008 não sepulta a chance de crescimento deste ano. Ainda há muito jogo pela frente. Aliás, estamos diante de uma oportunidade histórica, a de aprender a viver com taxas de juro de "países normais". Diferentemente do que ocorre no hemisfério norte, o Brasil terá de atuar na política monetária, e não na política fiscal, para amortecer a crise. Não existe a menor chance de os gastos públicos compensarem a queda nos investimentos e a contração de crédito. E isso é bom, porque o corte de juros afeta positivamente a economia de uma maneira muito mais horizontal, sem a seletividade da política fiscal, que beneficia alguns setores escolhidos. O Brasil ainda tem a maior taxa de juro real do planeta e tem condição de reduzi-la a um dígito sem risco inflacionário. Na minha opinião, esse dígito está mais para 5% do que para 9%. Quando a roda da economia mundial voltar a girar, os juros não terão de voltar ao patamar atual. Poderemos passar para uma nova normalidade. É claro que isso trará muitos benefícios para os investimentos produtivos, mas também apresentará desafios, particularmente para as instituições financeiras menos eficientes. Elas terão de funcionar com mais produtividade.

O cenário só vai melhorar em 2010
José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e sócio da consultoria MB Associados

O resultado do PIB no quarto trimestre de 2008 acabou com qualquer ilusão de que o Brasil permaneceria crescendo. Foi um tombo que define 2009. Rebaixamos a projeção de crescimento neste ano para 0,5%, mas o resultado pode ser zero ou -0,5%. Não deve haver novos choques, mas também não há condições para uma recuperação vigorosa. A expectativa é que a economia murche aos poucos ao longo do ano, com o desaquecimento do consumo. Até agora, a crise se manifestou na seguinte sequência: morte súbita do crédito, aumento dos estoques da indústria, redução da produção, redução das exportações, férias coletivas, queda brusca nos investimentos e, finalmente, retração do consumo. Com o crédito mais difícil e as pessoas mais inseguras em relação ao emprego, o consumo perderá força lentamente. Lá fora, o mundo não vai melhorar rapidamente. Ocorre que 25% da produção industrial brasileira é exportada, o que afeta não só grandes companhias como também muitas de médio porte. O Brasil exportou 700 000 carros no ano passado e é plausível que as vendas se reduzam a menos da metade desse volume. Não há consumo interno que compense tamanha queda. Os gastos públicos também não conseguem compensar a perda de investimentos, apesar da retórica retumbante do PAC. A reversão desse quadro só ocorrerá quando o mundo melhorar. Isso, para os otimistas, como eu, deve começar a ocorrer em 2010. Para os pessimistas, só em 2011.

A virada pode vir no terceiro trimestre
Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria

A crise chegou para valer ao Brasil, numa intensidade maior do que se imaginava. Isso coloca muitas dificuldades para o desempenho em 2009. Já começamos o ano com crescimento negativo de 1,5% comparativamente a 2008. Mas temos tudo para voltar a crescer no terceiro trimestre. Claro que isso vai depender do que ocorrer nos Estados Unidos, que representam 25% da economia mundial. Se os americanos levarem muito tempo para solucionar a paralisia do crédito, teremos problemas. Já se sabe que a economia mundial terá queda neste ano. Na melhor das hipóteses, haverá estagnação - coisa que não ocorria desde a Segunda Guerra Mundial. Felizmente, o Brasil não chegará a esse ponto. Aqui as decisões para a recuperação do crescimento vêm sendo tomadas no lugar certo - o Banco Central. Temos um sistema financeiro muito sólido, mas com um problema de liquidez. E essa é uma tarefa para o BC cuidar. A chamada ação contracíclica pelo lado fiscal é praticamente inexistente. O governo está fazendo uma propaganda muito grande - porque esse governo é bom de propaganda. Mas, ainda que o PAC fosse mais eficiente, representaria investimentos de cerca de 1% do PIB. E isso não tem a força de impulsionar a economia. É imaginar que o motor de uma moto seja capaz de impulsionar um Boeing. É melhor dizer o que o governo não deve fazer. Ele não deve aumentar seus gastos de custeio - que estão crescendo. O ideal seria promover cortes corajosos e, assim, abrir espaço para o investimento.

A volta do crescimento é questão de tempo
Cláudio Haddad, ex-diretor de política monetária do Banco Central e presidente da escola de negócios Ibmec São Paulo

Ainércia de crescimento que haveria de 2008 para 2009 acabou. A tendência ficou negativa. Mesmo que haja uma leve recuperação ao longo do ano, é provável que o crescimento do PIB fique próximo de zero ou haja até mesmo uma redução. Mas a volta do crescimento é questão de tempo. Estavam todos animados com a economia brasileira. Havia uma combinação entre as exportações crescendo - tanto pela alta de preço das commodities quando pela demanda externa - e o mercado interno vigoroso, com a expansão do crédito. Graças a isso, os lucros e os investimentos aumentavam. De repente, tanto as exportações quanto os investimentos despencaram - e o consumo interno caiu. Mas tudo vai voltar. A demanda continua existindo, a população continua crescendo, todos os fatores que fazem com que o país cresça continuam a existir. O que gera crescimento são as variáveis fundamentais: aumento da capacitação da força de trabalho, da poupança, da produtividade, da eficiência.

No curto prazo, o Brasil está numa situação diferente dos Estados Unidos. Lá, a política monetária se esgotou e havia espaço na política fiscal. Aqui é justamente o contrário: a política monetária ainda não se esgotou e há muito pouco espaço no lado fiscal. O país não deve se engajar, como os Estados Unidos, em aumento de gastos públicos correntes. Ao contrário, deve contraí-los, criando espaço para investimentos em infraestrutura.

Crescer devagar pode ser bom para o Brasil

Albert Fishlow, doutor em economia pela Universidade Harvard e diretor do centro de estudos brasileiros da Universidade Columbia, de Nova York

Todas as projeções indicam que a taxa de crescimento do Brasil em 2009 ficará próxima de zero, ainda que ao final do ano comece a dar sinais positivos. Este será um ano difícil: não existe mágica contra a crise. Por outro lado, no plano mundial, China e Índia devem expandir os gastos públicos, e parte desse estímulo deve afetar positivamente o comércio externo brasileiro. Mas não creio que o Brasil deva tentar crescer rapidamente. Crescer mais devagar será bom para o país, permitindo que alguns projetos do PAC fiquem prontos sem a pressão de um mercado muito aquecido. De certo modo, o Brasil tem até sorte por ter tido uma evolução mais lenta desses projetos. Os gastos públicos estão sendo feitos agora, justamente quando o setor privado perde o fôlego. De qualquer forma, o Brasil precisa aumentar suas taxas de poupança e de investimento. A Índia tem uma taxa de poupança de 25% em relação ao PIB; e a China, de 45%. O Brasil tem taxa de poupança da ordem de 18%. Só com mais poupança o país poderá atender a necessidades de infraestrutura, além de investir em educação e em ciência e tecnologia.

Atualizado em 26/03/2009 por Mariana Schneiderman

Fonte: Portal Exame
Link: http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0939/economia/quando-voltaremos-crescer-428802.html

Programa Shell Iniciativa Jovem 2012 surpreende participantes em aula inaugural.

Na última quinta-feira, dia 03 de maio, foi dada a largada oficial ao Programa Shell Iniciativa Jovem 2012. Depois de um longo processo seletivo, os 58 selecionados assistiram à – mais que motivadora – aula inaugural.

A Espera acabou !

Segue a Lista dos Aprovados para a Oficina de Projetos do Programa Shell Iniciativa Jovem 2012.